No calor da emoção de uma partida de futebol ou na iminência da derrota, não importa se o treinador não preparou direito o time ou se os jogadores mal tocaram na bola: é o juiz quem paga o pato, mesmo sem cometer qualquer deslize. Mas os xingamentos, que invariavelmente envolvem a mãe, coitada, estão longe de ser a única pedra no sapato de árbitros e assistentes. Profissão não regulamentada, forte competição e avaliações físicas constantes são alguns obstáculos que levam muitos a abandonarem os gramados. Só que, com a aproximação de Copa do Mundo e Olimpíadas, esse movimento tem sido compensado por outro: o aumento do interesse dos jovens. Estimulados pela paixão pelo esporte, eles encaram a carreira como forma de complementar a renda e, de quebra, conhecer o mundo.

Deputado Bonifácio de Andrada
Discussões sobre a situação da categoria vieram à tona, recentemente, depois que o presidente da Fifa, Joseph Blatter, afirmou que apenas árbitros profissionais apitarão a Copa, em 2014. Declaração que desceu quadrada tanto para a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) quanto para federações e clubes estaduais: como isso será possível, se, no país, a atividade não é reconhecida? A saída passa pela aprovação do projeto de lei 6.405/02, do deputado Bonifácio de Andrada (PSDB-MG), que regulamenta o exercício da profissão e aguarda votação no Plenário. Mas falta dinheiro e vontade política para tirá-lo do papel.
- É uma reivindicação antiga da categoria, mas com poucas chances de sair. Ninguém quer se responsabilizar e pagar essa conta, que inclui impostos e encargos trabalhistas – diz Jorge Rabello, presidente da Comissão de Arbitragem de Futebol do Estado do Rio (COAF).
Quem deseja seguir a carreira de árbitro ou assistente precisa, inclusive, comprovar anualmente vínculo empregatício para não depender da atividade. Isso significa que os 327 juízes e auxiliares cadastrados hoje na COAF, ligada à Federação de Futebol do Estado do Rio (FERJ) – inclusive os 40 cariocas que integram o quadro da CBF -, conciliam a intensa rotina de campeonatos país afora com outros trabalhos.
A maioria é militar ou formada em educação física, mas há também engenheiros, advogados e médicos. Agora, não é raro deparar-se com histórias de árbitros que foram obrigados a pendurar as chuteiras antes dos 45 anos (idade limite na função, tanto para homens como para mulheres). Os motivos, quase sempre, estão ligados à falta de apoio do chefe ou de jogo de cintura para driblar tanta correria.
É o caso de Marcelo Duarte, ex-árbitro assistente da CBF. Professor de educação física da UniverCidade, o profissional encerrou a carreira nos campos aos 40 porque ficou cada vez mais difícil combinar as constantes viagens para apitar – muitas delas no meio da semana – com as aulas que dá na faculdade. Mas ele garante que não se sente frustrado. Hoje o profissional compensa a saudade do futebol preparando futuros árbitros e auxiliares na Escola de Arbitragem da Ferj, onde trabalha como secretário-geral.
- Com a aproximação da Copa do Mundo e das Olimpíadas, cresceu muito o interesse dos jovens pela arbitragem. A prova é que, há cinco anos, a turma tinha cerca de 30 alunos, enquanto hoje temos o dobro e mais uma lista de espera enorme. O número de meninas também aumentou bastante – comemora Duarte, para quem árbitro tem que ser atleta. – Um juiz faz cerca de 250 marcações e corre de 12 a 14 quilômetros por partida. É um trabalho difícil, que exige muito, dentro e fora de campo. Além de boa preparação física e conhecimento das regras, é preciso ter cuidado redobrado com a imagem: não dá para revelar o time de coração nem sob tortura.
Com duração de 11 meses, o curso preparatório conta, às terças e quintas, com aulas teóricas das regras de futebol, redação da súmula da partida, português e espanhol, entre outras disciplinas. Aos sábados, é a vez dos treinamentos físicos e de técnicas de arbitragem. O pré-requisito para obter uma vaga é ter de 17 a 25 anos, além de ensino médio completo. Para avaliar o aluno, a escola aplica três testes de velocidade e resistência ao longo do ano, intercalados por provas parciais, no Estádio de Atletismo Célio de Barros, anexo ao Maracanã. A mensalidade, atualmente de R$ 400, deve aumentar, no ano que vem, para R$ 500.
- Durante o curso o aluno pode apitar competições das categorias de base, o que ajuda a colocar conhecimentos em prática e a pagar as despesas – explica o presidente da Coaf.
Enquanto um aspirante a juiz recebe cerca de R$ 200 para apitar um jogo amador no início da carreira, um árbitro da CBF chega a embolsar R$ 2.100 por partida durante o Brasileirão. Juízes da FIFA, por sua vez, podem ganhar até R$ 3.150. Mas para chegar a esse patamar, ressalta Rabello, a trajetória não é nada fácil:
- Uma pessoa leva de quatro a cinco anos para chegar às competições profissionais, nas quais tem de começar apitando jogos da terceira e segunda divisão no seu estado. Só após dois anos fazendo um bom trabalho no profissional, é possível concorrer a uma vaga no quadro da CBF e, a partir daí, no da Fifa. É um caminho longo e disputadíssimo, onde nem sempre só talento basta. Como indicação tem um peso importante, é preciso cultivar bons relacionamentos – acentua Rabello.
Para Arnaldo Cezar Coelho, ex-árbitro da FIFA e comentarista da Rede Globo, apitar jogos amadores é uma boa alternativa para ganhar experiência, complementar a renda e não ficar parado:
- Tem gente em São Paulo que vive disso, se dividindo entre três ou quatro cooperativas que atuam só em jogos particulares. É um caminho diante da falta de regulamentação e da dificuldade de ascensão na carreira – diz Coelho, que foi promovido a juiz da FIFA em 1969, apenas cinco anos depois de se tornar federado pelo Rio. – Apitei duas Copas e duas Olimpíadas, conheci o mundo e fiz bons negócios. Mas na minha época era diferente. Quem se destacava era pescado logo.
De R$ 2.500 a R$ 3.500 por mês para apitar peladas
Uma saída para driblar a concorrência acirrada do universo oficial da arbitragem e, ao mesmo tempo, ganhar experiência no ramo, é apitar jogos amadores promovidos por empresas e condomínios. Criada há seis anos, a Cia da Arbitragem trabalha com o aluguel de árbitros para torneios e peladas em todo o estado. Além de 20 juízes e auxiliares fixos, a empresa conta com mais 30 que atuam como freelancers, segundo a demanda.
A ideia surgiu entre os amigos Marino Najaime, Marcello Costa e Rodrigo Carvalhaes, que se conheceram no curso preparatório da Escola de Arbitragem da Ferj (EAFERJ). Apaixonados por futebol, pensaram em uma solução para melhorar o nível das peladas de fim de semana que participavam.
- Como sempre fomos peladeiros, identificamos a necessite de profissionalizar mais a arbitragem. A cada jogo a gente esbarrava em problemas como desorganização, falta de critério e impontualidade, por exemplo. O objetivo é colocar um fim nisso – afirma Najaime, árbitro há 17 anos.

Trio de arbitragem: Líliam Fernandes (esq.), Simone Xavier e Andréa Sá
O profissional, que trabalha com informática, chegou a apitar jogos da segunda divisão como assistente da FERJ. Mas como muitos colegas federados, não conseguiu conciliar o emprego com a rotina dos campeonatos oficiais. Hoje presta serviço para empresas que os torneios internos, como Amil, Coca-Cola e Nestlé.
- Um árbitro da nossa equipe pode chegar a ganhar entre R$ 2.500 e R$ 3.500 por mês, caso participe ativamente do calendário. Temos uma escalação diferente, sem sorteios, que segue critérios como comprometimento, disciplina, postura e avaliação do cliente – explica Najaime, ressaltando que, para fazer parte do grupo, não é preciso ser registrado na COAF e nem comprovar vínculo empregatício. – Qualquer pessoa pode se candidatar, mas terá de passar por uma avaliação rigorosa, que inclui análises técnicas e testes em campo.
Para se preparar para os testes periódicos da FERJ, a carioca e assistente de arbitragem Patrícia Silveira, de 25 anos, treina corrida todo dia no Célio de Barros. Professora de educação física, a moradora de Vila Isabel entrou no curso de arbitragem em 2009, por insistência de uma amiga. Hoje, namora um árbitro e atua principalmente em torneios estaduais femininos.
- Se eu não passar em um teste, tenho que ficar afastada até o próximo. E é difícil: a prova não faz distinção por sexo. Mas até agora nunca fui reprovada – comemora ela, que tira de letra os percalços de ser mulher num universo predominantemente masculino. – Uma vez um jogador me xingou, e pedi a expulsão dele ao árbitro. A gente tem de saber se impor.
Representante feminina do Rio no quadro da FIFA, Simone Xavier, de 36 anos, também segue uma rotina puxada: quando não está trabalhando como professora de educação física da rede de pública de ensino, bate ponto no Célio de Barros.
- Ainda faço cursos de arbitragem e estudo espanhol e inglês. Não dá tempo nem de arranjar namorado – brinca.
Apesar de o caminho para se destacar não ser fácil, Jorge Rabello, da COAF, garante que a arbitragem é uma excelente oportunidade de carreira para os jovens. E que a burocracia necessária não é tão rígida assim:
- O árbitro deve declarar seus rendimentos todo ano, mas se ficar desempregado, não deixará de apitar.
Fonte: O Globo
Autora: Paula Dias
Link: http://oglobo.globo.com/economia/boachance/mat/2011/07/14/amaldicoados-nos-estadios-juizes-de-futebol-tem-que-driblar-falta-de-regulamentacao-profissional-924911604.asp
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