Em cinco anos, quantidade de árbitras no futebol do estado quase dobrou
O desenvolvimento do futebol feminino ao redor do mundo, além de revelar grandes talentos e representar mais um passo na luta feminista por direitos iguais, abriu caminho para um novo campo de trabalho para as mulheres: a arbitragem. Atualmente, só em São Paulo são 21 mulheres que seguem a carreira. Em 2005, por exemplo, havia apenas 12 árbitras no Estado. Silvia Regina de Oliveira, diretora da escola de árbitros Flávio Iazzeti, passa para as alunas o que aprendeu nos gramados.
Se comparar com o restante do país, o futebol paulista é o que mais conta com profissionais do sexo feminino na arbitragem, quase a metade das 48 árbitras espalhadas por todas as regiões. De acordo com Roberto Perassi, professor da Escola de Árbitros da Federação Paulista de Futebol, este número só tende a aumentar. “Para a nossa próxima turma da escola, temos mais de dez mulheres inscritas, com certeza daqui alguns anos teremos um número ainda maior”.
A dificuldade encontrada por uma mulher ao seguir os caminhos da arbitragem pode ser ainda maior do que a de um homem. É o que explica o psicólogo dos árbitros da Federação Paulista de Futebol, Gustavo Korte. “O ser feminino sofre com muitas alterações hormonais, esse ponto deve trabalhado com muito cuidado. Até mesmo o fato da menstruação pode atrapalhar a arbitra durante uma partida, por isso é algo muito sério”, argumentou.
Acostumado a acompanhar o trabalho da arbitragem de perto, Korte relata que algumas experiências marcaram sua carreira. “Na carreira do árbitro de futebol, muitas vezes há a falta do respeito da parte torcedor. Eu já vi algumas mulheres chorando após os jogos. A pressão é muito forte e algumas não aguentam”, explica.
Na década de 90, com o surgimento de campeonatos internacionais oficiais, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) criou um quadro exclusivo para arbitras, fazendo com que o que era profissão exclusiva dos homens, passasse a fazer parte do universo feminino. No entanto, seus trabalhos eram restritos às partidas de futebol feminino.
Marco histórico
No dia 30 de junho de 2003, São Paulo e Guarani se enfrentavam pelo Campeonato Brasileiro. O que era para ser apenas mais um jogo entrou para a história do futebol nacional. Silvia Regina de Oliveira era a dona do apito naquela tarde e se tornava a primeira mulher a trabalhar como árbitra principal de futebol na história do Brasileirão.
“Na época, era apenas mais um jogo, que exigiria concentração, dedicação e trabalho, assim como todos os outros”, lembra Silvia.
No entanto, hoje ela reconhece que o acontecimento foi além de uma simples partida. “Agora que encerrei minha carreira, sei que ser a primeira mulher a apitar jogos da Série A de um campeonato no país do futebol é uma grande honra”, disse.
Atualmente, a ex-árbitra é diretora da Escola de Árbitros Flávio Iazzetti, da Federação Paulista de Futebol, e um dos maiores exemplos para aquelas que querem se aventurar entre as quatro linhas.
Silvia conta que atualmente encara com naturalidade a presença de uma mulher em campo, e que a prática está ficando cada vez mais comum. A questão do preconceito, ela garante que ficou no passado. “Com o tempo provamos que somos capacitadas da mesma forma que qualquer homem”.
Maria Eliza e Aline Lambert são outros exemplos de juizas bem sucedidas no futebol paulista. “É uma satisfação muito grande saber que a mulher está conquistando cada vez mais espaço no futebol, tanto com atletas quanto como árbitras”, disse Maria Eliza.
No entanto, o caminho para se tornar uma árbitra de respeito não é simples, e a responsabilidade é algo que não pode ser deixado de lado. Ana Paula de Oliveira, assistente que marcou época em meados do ano 2000, seguiu um caminho diferente das demais. Após posar para uma revista masculina e participar de um reality show na TV, sequer foi selecionada para exercer sua função em 2010.
Dentro de campo, o respeito por parte dos atletas muitas vezes é esquecido. Mesmo sabendo que estão falando com uma mulher, o palavreado não costuma ser dos mais educados. Contudo, Arthur Oyama, lateral-esquerdo do Santo André, garante que o árbitro sempre é a autoridade, não importa o sexo. “O juiz, independente de ser homem ou mulher tem que ser respeitado dentro de campo. Indisposições e erros durante o jogo acontecem, mas a qualidade do árbitro não depende do sexo”, disse.
Já Maurício Salgado, técnico do time feminino do São Caetano, acredita que ainda há muito machismo. “Por um lado, as mulheres acabam sendo respeitadas em algumas situações simplesmente por serem mulheres. Por outro, há um certo machismo em relação ao fato de ser mulher e alguns erros que homens cometem e até são aceitos, com as mulheres não acontecem o mesmo”.
Entretanto, o treinador também acredita que a situação está melhorando nos gramados brasileiros, principalmente nos grandes centros do esporte. A presença da mulher em vários cenários levou um certo tempo para se consolidar. E no futebol não parece ser diferente. “Como o futebol tem crescido na modalidade feminina, isso também deveria ocorrer em todos os âmbitos, não só dentro de campo, como na arbitragem e em comissões técnicas. Eu acredito no potencial feminino, mas a experiência no meio ainda é recente e precisa se desenvolver”, completa.
Fonte: Univ. Metodista de São Paulo
Autores: Fausto Monteiro, Felipe Pugliese, Lorelay Mendes e Thais Romanelli
http://www.metodista.br/rronline/noticias/esportes/2010/05/sao-paulo-vira-polo-nacional-da-arbitragem-feminina
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