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Armadilhas do cérebro ajudam a explicar erros de arbitragem

No lance mais polêmico da última rodada do Campeonato Brasileiro, o atacante André marcou para o Santos em um lance com três impedimentos que não foram marcados. O assistente que deixou de levantar sua bandeira, Emerson Augusto de Carvalho, foi afastado e os erros deram início a uma mudança no comando da arbitragem. O problema é que a culpa no lance pode não ser exclusiva do assistente, mas do próprio cérebro humano.

O UOL Esporte ouviu um neurologista e um psicólogo especializado no trabalho com o futebol. E os dois concordaram que, em lances como o do segundo gol do Santos na vitória por 3 a 2 sobre o Corinthians, no último domingo, é possível que profissionais experientes, como o assistente Fifa Emerson Augusto, tenha caído em algumas “armadilhas” do processo cerebral ao interpretar situações complexas.

“O cérebro tem muita capacidade de processamento, mas uma capacidade limitada de observar lances simultâneos. O cérebro não enxerga um filme. Ele enxerga fotos e vai remontando a sequência. Só que, ao observar uma situação que muda muito rapidamente, o cérebro, automaticamente, faz uma interpretação do que aconteceu anteriormente. E essa interpretação pode não ser a correta, mas a pessoa vai acreditar nesses dados”, explica David Schlesinger, neurologista do Hospital Albert Einstein, de São Paulo.

Na prática, funciona assim: o árbitro-assistente até consegue ver o passe e a linha de impedimento, mas quando acontece uma mudança brusca de velocidade do jogador que vai receber a bola, a percepção de onde esse jogador estava, no início do lance, é alterada pelo cérebro de quem está olhando.

“Imagine se o jogador estava impedido, correndo mais lentamente, mas acelerou. Você pode interpretar como se ele tivesse partido de um ponto mais atrás do que realmente partiu. E o contrário também é verdade. Se você enxerga o jogador em um ponto à frente [da linha de impedimento], mas ele estava mais lento, pode interpretar que ele estava à frente quando o lance começou, mas na verdade não estava. Isso já é um problema. Agora, se o passe e a linha [de impedimento] não estão no mesmo campo de visão, você ainda precisa colocar o tempo de virar a cabeça e focar o jogador. Isso aumenta o período de análise e a possibilidade de os atletas terem mudado suas posições. São muitas informações ao mesmo tempo. Uma boa parte dos erros que acontecem no futebol podem ser decorrentes de processos como esse”, analisa o neurologista.

Lances assim são muito comuns. Na última quarta-feira, por exemplo, o Botafogo foi beneficiado por um deles, em duelo da Sul-Americana: contra o Palmeiras, aos 20 minutos do primeiro tempo, Lucas voltava de posição de impedimento quando Andrezinho fez o passe. O lateral, então, mudou rapidamente de trajetória e recebeu o passe. O vídeo mostra que ele estava impedido, mas pela velocidade, a interpretação imediata do lance poderia ser de posição normal.

Uma semana antes, o próprio Palmeiras foi beneficiado: Barcos marcou o gol da vitória contra o Flamengo, em um rebote. No início do lance, o chute de Artur, o atacante palmeirense já estava à frente dos rivais. Quando o goleiro Felipe espalmou, o argentino já estava sozinho, dentro da pequena área.

Na vitória do Grêmio sobre o Bahia, por 3 a 1, pela 14ª rodada, aconteceu o inverso: em uma jogada de pela esquerda, Lulinha entrou na área e chutou. O goleiro Grohe espalmou para frente e Fahel completou para o gol. O meio-campista do Bahia estava em posição legal, mas seu companheiro, Zé Roberto, que não participou do lance, estava impedido.

Segundo Gustavo Korte, que trabalha a preparação psicológica dos árbitros da Federação Paulista de Futebol, explica que o volume de informação em lances como esses são muito grandes e qualquer dúvida pode gerar um erro de interpretação das informações. “Imagine um lance com quatro atacantes, dois impedidos. Você tem um a 10 metros de você, outro a 50. A jogada chega em velocidade e a concentração está na linha do defensor, mas você também tem de estar atento à hora em que a bola vai ser tocada e para quem vai esse passe. Os quatro atacantes podem correr ao mesmo tempo e você tem que saber qual deles vai tocar na bola e se esse estava impedido quando o toque foi feito. Para complicar ainda mais, imagine se a bola vem voando e você também tem de correr para se manter no lance. É tudo muito rápido”, justifica Korte.

Essa armadilha cerebral, porém, não é única dificuldade que os assistentes enfrentam em uma partida. Outra grande preocupação acontece na reprogramação cerebral necessária na mudança do primeiro para o segundo tempo. “Normalmente, os assistentes focam a concentração na linha de defesa, na maior parte na cor dos uniformes. Mas quando ele vai para o vestiário, na volta para o segundo tempo o raciocínio se inverte. E demora um pouco para se fazer essa mudança mentalmente, principalmente se, durante o intervalo, ele não teve o tempo ideal para se preparar para o segundo tempo”, fala Korte.

“Não existem estudos extensos sobre essa área, mas essa explicação é bem possível. Para simplificar situações complexas, nós adotamos alguns marcadores. E as cores são exatamente isso. Você fala em preto e branco para simplificar. E, com a virada de campo, pode demorar um pouco para se acostumar com essa mudança. No basquete você vê isso com muito mais clareza. Jogadores até fazem cestas contra porque estão focados em uma direção de bola, o lado virou, a concentração caiu e ele se viu perdido”, concorda Schlesinger.

O lance de Corinthians e Santos, que abre a matéria, é um exemplo disso: aconteceu justamente aos quatro minutos do segundo tempo. E ainda tem outros atenuantes: no primeiro impedimento, Léo cruza para a área e três santistas estão impedidos. No segundo lance, Bruno Rodrigo passa de cabeça para Durval, também à frente. Durval, então, passa para André, que segue impedido. O assistente teve de julgar três lances diferentes, de interpretação complicada em cada um, em pouco mais de três segundos.

“Especificamente sobre o Emerson, era praticamente impossível para ele cometer três erros em um mesmo lance. Ele é um craque. Mas o que pode ter acontecido é, após o primeiro lance, ele percebeu que errou. Mas passou a pensar nisso e acabou perdendo a concentração para o segundo e para o terceiro lances também”, justifica Korte.

Essa perda de concentração também foi abordada pelo neurologista David Schlesinger: “O nível de atenção de uma pessoa varia muito. Alunos, em sala de aula, sem nenhum esforço físico, ficam sentados por 45 minutos, 1h15 e passam a perder concentração. Imagina durante um jogo de futebol?”

Fonte: UOL

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